abril 08, 2009

Lições da Febre Amarela

Carlos Magno Castelo Branco Fortaleza
Professor Assistente-doutor e Chefe do
Departamento de Doenças Tropicais
da Faculdade de Medicina
de Botucatu – UNESP.





“O doutor Rieux decidiu, então, redigir esta narrativa (…) para dizer simplesmente o que se aprende no meio dos flagelos: que há nos homens mais coisas a admirar que coisas a desprezar.” (Albert Camus, A Peste)


Poucas palavras assustam tanto quanto “epidemia”. Pronunciada em tom grave, ela nos evoca pessoas agonizando em praça pública. Lares desfeitos, mães pranteando filhos...

A memória coletiva explica os temores. A peste bubônica dizimou um terço da população da Europa no Século XIV. Em 1918, pelo menos 40 milhões de pessoas em todo o mundo faleceram em decorrência da gripe espanhola. Varíola e cólera deixaram um rastro mortífero na história da humanidade...

Por outro lado, a ciência do século XX nos prometeu segurança. Erradicou-se a varíola. Controlou-se a poliomielite. Dezenas de vacinas e antibióticos foram disponibilizados. Tudo indicava, de fato, que a civilização saíra vitoriosa de uma antiga guerra.

Por que razão os velhos inimigos ressurgem de onde menos esperamos?

“Febre amarela? Uma doença dos tempos de Dom Pedro II?”, esbravejava recentemente um apresentador de telejornal. “Onde vai parar a saúde desse país? É uma vergonha!”

A resposta adequada exige uma boa dose de lucidez.

De fato, nos tempos de Dom Pedro II, a febre amarela causou a morte de 120 habitantes na cidade do Rio de Janeiro em um só dia: 15 de Março de 1850. Mas, graças a uma combinação feliz de vacinação e controle de vetores, a febre amarela urbana foi eliminada do país em 1942. Restou a forma silvestre da doença, mantida na natureza pelos macacos.

Nas décadas de 1990 e 2000, novas atividades (como o ecoturismo) aumentaram o fluxo indivíduos não vacinados para áreas de risco. A conseqüência natural foi o aumento do número de casos de febre amarela.

No entanto, desde 2008, essa doença tem causado especial temor. Duas razões explicam esse fenômeno. Em primeiro lugar, a área de risco aumentou. Por outro lado, os sistemas de vigilância tornaram-se mais sensíveis. Atualmente, campanhas de vacinação são iniciadas a partir da detecção de mortalidade em macacos.

Ainda assim, os eventos recentes nos tomaram de surpresa. Para todos que nos envolvemos diretamente na assistência a pacientes com febre amarela, as últimas semanas foram uma batalha intensa e muitas vezes frustrante.

“Trata-se de um surto ou de uma epidemia?”, perguntaram muitos. A distinção é meramente técnica, e não diminui a dor dos que perderam pais, maridos, filhos. Mas ouso crer que mesmo de um episódio doloroso podemos extrair exemplos e lições.

O diagnóstico dos pacientes foi ágil. A velocidade do fluxo de informações permitiu que medidas de controle fossem instituídas prontamente. Os meios de comunicação contribuíram de forma surpreendente para o esclarecimento da população. Equipes municipais e estaduais trabalharam em uma colaboração exemplar. O Hospital das Clínicas da Unesp re-estruturou seus fluxos de atendimento para conduzir da melhor forma possível os pacientes com suspeita de febre amarela.

O que nós constatamos em Botucatu e região não foi caos e pânico. Vimos uma população consciente buscando o meio eficaz de proteção.

Tudo isso nos leva a refletir sobre o trecho do livro A Peste, de Albert Camus, que citamos acima. Cada profissional da saúde, nas visitas domiciliares, nos postos volantes de vacinação ou à beira do leito de pacientes, demonstrou que há muito a admirar na humanidade.

É impossível prever quantas novas doenças emergirão, quantas velhas pestes ressurgirão. Mas é possível contar com mecanismos ágeis de resposta a essas “emergências epidemiológicas”. A identificação dos pacientes e a vacinação oportuna evitaram novos casos de febre amarela e salvaram vidas. Medidas como estas nos convidam a um olhar mais respeitoso para o Sistema Único de Saúde.