abril 06, 2009

São Paulo receberá 200 artistas de 12 companhias de sete países

TRADIÇÃO E ATUALIDADE É O TEMA DESSE ANO - Espetáculos e atividades gratuitas entre 4 e 10 de maio no Centro Cultural São Paulo além de duas encenações na rua
Chega à quarta edição a Mostra Latino-Americana de Teatro de Grupo, desta vez ainda mais abrangente, reunindo 12 companhias que representam as artes cênicas de seis países, entre os quais o Brasil, com sete companhias regionais. O evento ocupa os espaços do Centro Cultural São Paulo, na capital paulista, entre 4 e 10 de maio, de segunda a domingo. Todas as apresentações são gratuitas. A realização é da Cooperativa Paulista de Teatro, com o patrocínio da Petrobras.

Sob o tema Tradição e Atualidade, a Mostra recebe grupos que estão entre os mais antigos do movimento como o Galpão, de Minas Gerais; o Yuyachkani, do Peru, que a Mostra tenta trazer desde 2006, e o El Galpón, do Uruguai, fundado em 1949, que completa 60 anos de trajetória. Outros são bem jovens, como o Concreto, de Brasília, e A Tropa do Balacobaco, de Pernambuco.

Pela primeira vez, a cidade de São Paulo é representada por um grupo, o Brava, de teatro de rua, um dos ganhadores do Prêmio da Cooperativa Paulista de Teatro.

Todos os espetáculos são inéditos, com exceção de Volta ao Dia, da Cia. Brasileira de Teatro de Curitiba, que teve uma mini-temporada na cidade em março de 2004, e de A Brava, da Brava Companhia, de São Paulo, apresentada no ano passado.

Além das peças, todas as companhias farão uma Demonstração de Trabalho, apresentando para o público e demais grupos, de forma prática, seus processos de criação.

Trata-se, portanto, de oportunidade rara para o público conhecer montagens contemporâneas, coletivas e ao mesmo tempo autorais, que não possuem apelo comercial e dificilmente chegam aos palcos da cidade.

No primeiro dia da Mostra, em 4 de maio, a partir das 10h, haverá um café da manhã reunindo todos os grupos, imprensa e produtores culturais, com a apresentação do grupo musical Samba da Vela.

A Mostra editará diariamente uma publicação com críticas dos espetáculos do dia anterior – com versões em português e espanhol -, além de notas e informações sobre o evento.

Outra novidade é o Espaço da Mostra, que abrigará a banca com diversas publicações, exposições de fotos, artigos e vídeos sobre as edições anteriores e uma área de convivência. No Espaço, no dia 9 de maio, haverá os lançamentos da Revista Subtexto no. 5 e da coleção Cadernos de Dramaturgia do Galpão Cine Horto, ambos editados pelo Grupo Galpão, em parceria com a Editora Argvmentvm

As companhias internacionais representam diferentes regiões da América hispânica:

Delta Teatro, de Culiacán, Sinaloa, noroeste do México, com a montagem El Ángel de Voz Dura… una historia del Che Guevara, que mistura atores e bonecos, um texto criado coletivamente pelo grupo e pelo diretor do espetáculo, o argentino Hugo Aristimuño.

Em mais de 10 anos de carreira no teatro independente mexicano, o Delta montou cerca de 15 espetáculos, sendo que El Angel de voz Dura é o mais recente.

A montagem tem o objetivo de mostrar às novas gerações a figura mítica de Guevara, o revolucionário que nascido na Argentina, conhecia profundamente a América Latina, foi recrutado no México pelos irmãos Fidel e Raul Castro para lutar em Cuba e depois morrer na Bolívia.

Teatro La Cueva, de Sucre, na Bolívia, com a peça El otro huevo de Colón, uma adaptação do livro homônimo de Juan Umazano, realizada por Juan Rodríguez e Darío Torres, também diretores da montagem. Trata-se de um espetáculo feito em parceria com o grupo de teatro de bonecos Títere Paralamano e que recebeu o Prêmio Nacional de Teatro Peter Canedo em seu país.

O espetáculo fala do sonho e do projeto de Cristovão Colombo e de sua primeira viagem patrocinada pelos Reis Católicos de Espanha, Isabel I de Castela e Fernando II de Aragão, em 1942, com destino às Índias, à bordo das embarcações Santa Maria, Pinta e Niña.

Periplo, Compañía Teatral, de Buenos Aires, Argentina, com La Conspiración de los Objetos, espetáculo que estreou no final de 2008 escrito pelos quatro membros fundadores e permanentes do grupo: Diego Cazabat, Hugo de Bernardi, Julieta Fassone e Andrea Ojeda, dirigido pelo primeiro e interpretado pelos outros três. Formado em 1995, essa companhia estável trabalha com esse núcleo central ao que se somam inúmeros artistas e mesmo outras companhias argentinas ou não.

Nesse espetáculo, o grupo faz uma experiência com um “concerto teatral” em que três personagens agem a partir de partituras musicais escritas anteriormente e que irão determinar o que está para acontecer. O espetáculo estreou em Buenos Aires e já foi apresentado na Espanha, Dinamarca e Itália.

Grupo Cultural Yuyachkani, de Lima, Peru, com El Último Ensayo, espetáculo que estreou em março de 2008, uma criação coletiva de Yuyachkani, com textos de Peter Elmore, direção geral de Miguel Rubio e sete atores em cena: Ana Correa, Amiel Cayo, Augusto Casafranca, Débora Correa, Julián Vargas, Rebeca Ralli e Teresa Ralli.

O espetáculo parte da seguinte premissa: em um antigo cine-teatro, um grupo de artistas relembra o repertório musical de uma cantora que ao longo do século XX foi sucesso internacional, divulgando o nome e a cultura do país pelo mundo.

Institución Teatral El Galpón, de Montevidéu, Uruguai, com Un Hombre es un Hombre, de Bertolt Brecht, em adaptação e direção de María Azambuya, que entrou para o grupo em 1973 e é uma de sua mais antigas integrantes em atividade. No elenco, Silvia García (outra veterana, desde 1976 no Galpón), Marcos Zarzaj, Pablo Dive, Gabriel Hermano, Sarit Ben Zeev, Mauricio Chiessa e Fernando Vannet.

A montagem foi criada pelo núcleo de Extensão Cultural do Galpón, destinado à formação de novas platéias e responsável por levar desde 1985 mais de 2 milhões de pessoas aos seus espetáculos.

Pelo Brasil, os grupos também chegam de todas as partes:

Coletivo de Teatro Alfenim, João Pessoa, na Paraíba, grupo formado em abril de 2007 por Márcio Marciano, um dos fundadores da Companhia do Latão, de São Paulo, onde permaneceu por cerca de 10 anos.

O Alfenim vai mostrar o primeiro espetáculo que montou, Quebra Quilos, texto e direção de Marciano, estrelado por duas atrizes que são referência no teatro paraibano, Sôia Lira (egressa do grupo Piollin) e Zezita Matos, que completa 50 anos ininterruptos de palco. Elas se encontram em cena como mãe e filha que, em fins do século XIX, são obrigadas a abandonar o lugar em que vivem no interior da Paraíba por força da violência do proprietário das terras, um senhor de engenho às voltas com a modernização do sistema açucareiro. Ainda no elenco, Daniel Araújo, Daniel Porpino, Roberta Alves, Sebastião Formiga e Verônica Souza;

Cia. dos Atores, do Rio de Janeiro, que mostrará dois espetáculos curtos na mesma noite, Talvez e Apropriação®.

O primeiro é um monólogo escrito e interpretado por Álamo Faço, com direção de César Augusto, onde o personagem Dário, sozinho em casa, convive por dias apenas com seu computador.

Em Apropriação®, a atriz Bel Garcia estréia como diretora e roteirista (em colaboração com Marina Vianna, Leonardo Netto e Thierry Tremouroux). O roteiro foi elaborado a partir do universo de Harold Pinter, misturando trechos de peças ('Monta-Cargas', 'O Zelador', 'Festa de Aniversário', 'Volta ao Lar', 'Paisagem' ‘Cinzas as Cinzas’, etc), entrevistas e declarações do dramaturgo inglês. No elenco, Leonardo Netto e Thierry Tremouroux;

Cia. Brasileira de Teatro, grupo criado em 1999 em Curitiba, Paraná, por Marcio Abreu, ator, dramaturgo e diretor, vai apresentar Volta ao Dia, com as atrizes Christiane de Macedo e Maureen Miranda. É um texto original inspirado na obra de Julio Cortázar, com direção e dramaturgia de Marcio Abreu. A peça estreou em Curitiba em abril de 2002 e desde então faz parte do repertório do grupo, com temporadas em diversas cidades e participação em mostras e festivais pelo Brasil e no exterior.

Ana e Margrit, duas mulheres que não se conhecem, encontram-se num apartamento no qual nunca haviam estado. Deste ponto parte a peça Volta Ao Dia. Trata-se de um discurso não linear, de um fluxo racional de pensamento, entrecortado por imagens, atitudes cotidianas e sentimentos que apontam na direção das incertezas e contradições das duas mulheres. Através de uma narrativa fragmentada, abordam questionamentos como a busca do mundo ideal, a viagem, a busca de si mesmo, a dúvida entre ir ou ficar. Inspirados pela obra libertária de Julio Cortázar, que não deixa de apresentar reflexões críticas, bem humoradas e inusitadas do comportamento cotidiano. A peça é um jogo, são várias histórias, imagens, fragmentos de histórias, depoimentos e humores que relacionam-se numa estrutura composta por elementos de diferentes origens: o discurso dramático tradicional, as ações sem texto, a música, o cinema e a literatura.

Teatro do Concreto, de Brasília, traz Diário do Maldito, resultado de dois anos de pesquisas sobre o universo de Plínio Marcos (morto há 10 anos), criação coletiva do grupo a partir de improvisações a respeito da vida e obra do dramaturgo paulista e suas conexões com a capital do país. A direção é de Francis Wilker, com consultoria artística de Tiche Viana, fundadora do Barracão Teatro de Campinas. No elenco, Aline Seabra, Alonso Bento, Gleide Firmino, Johny Gomantos, Maria Carolina Machado, Marta Aguiar, Micheli Santini, Nei Cirqueira e Robson Castro.

No espetáculo, o público é recebido num bar onde conhece diversas histórias e personagens que descrevem a trajetória divertida e comovente de um Poeta que sempre dedicou sua obra à denúncia social, mas, que agora, pensa em parar de criar. Inconformados com a situação, seus personagens invadem a cena para cobrá-lo. O Teatro do Concreto tem como características a criação por meio do processo colaborativo, a construção de dramaturgia própria e a utilização de depoimentos pessoais. Nesse caso, foram entrevistados pessoas próximas ao dramaturgo como o diretor Tanah Correa, o secretário de cultura de Santos, Carlos Pinto, os baluartes do samba paulista Toniquinho Batuqueiro e Carlão do Boné e a última companheira de Plínio, a jornalista Vera Artaxo.

Grupo Galpão (de Belo Horizonte, Minas Gerais, que vai mostrar o trabalho em progresso Till Eulenspiegel, texto de Luis Alberto de Abreu, com direção de Júlio Maciel, que estreará ainda em 2009).

O texto narra as aventuras de um anti-herói torto, bem ao estilo da cultura popular, que percorre as aldeias e vilas da Alemanha feudal. Till Eulenspiegel, uma espécie de Pedro Malasartes da Idade Média, vai encontrando personagens esdrúxulos e vivendo aventuras em que, através da sua malandragem e do seu instinto de sobrevivência, vão sendo revelados e desmoralizados os mecanismos de dominação dos poderosos .

Tropa do Balaco Baco, de Arcoverde, Pernambuco, grupo de teatro de rua formado em 2007 da união entre a longeva Equipe Teatral de Arcoverde (criado na década de 70) e a Trupe do Balacobaco (de 2002).

A Tropa vai mostrar A Paixão e a Sina de Mateus e Catirina, o primeiro espetáculo que realizaram, com texto e direção de Romualdo Freitas na interpretação de 15 atores - Ronaldo Bryan, Pedro Gilberto, Mário Arantes, William di Castilho, Allan da Silva, Everaldo Marques, Givaldo Silva, Fabiana Moraes, Fábio Beserra, Fabian Queiroz, Dayara Carvalho, Romualdo Freitas, Alex Leite, Dalva Laranjeiras e Thiago Alves - que executam a música ao vivo. O espetáculo é antecedido por um cortejo que anima o público no trajeto entre a concentração e cena final.

Na história, Catirina, grávida há mais de doze meses convence seu pretendente a marido, Mateus, a atender seus desejos de comer a língua do boi do patrão, no que é atendida pelo apaixonado que deixa o animal estrebuchando. O Coronel ameaça os dois de morte caso a boi feneça, criando a deixa para que o Mateus traga para cena mais três figuras: o Padre, a Mão Preta e Dr. Mister que depois de várias tentativas não conseguem levantar o boi. Por fim sem mais ter esperanças o casal perde o jogo mas não alegria e resolve esperar o Coronel cantando e dançando sem perceber que esse sim é o remédio que levanta o boi.

A Brava Companhia, de São Paulo, também é um grupo de teatro que opta pelos espaços não convencionais e que apresentará o espetáculo A Brava, baseado na história de Joana D’Arc, na passarela do metrô Vergueiro. Direção e dramaturgia de Fábio Resende, texto e músicas da Brava Companhia e, no elenco, Rafaela Carneiro, Fábio Resende, Márcio Rodrigues e Ademir de Almeida.

A peça propõe uma reflexão sobre os objetivos, rumos e escolhas de cada indivíduo, e a sua postura frente às conseqüências destas escolhas. Nesta montagem da Brava Companhia, a saga da heroína francesa é mostrada de forma épica, se valendo de recursos como a música e a interação com a platéia e referências da cultura popular e da cultura pop, agregadas a situações cênicas que exploram o drama e um humor anárquico, para construir paralelos com os dias de hoje.

Todas as atividades da Mostra são gratuitas. A Mostra Latino-Americana de Teatro de Grupo – 2009 dá continuidade ao trabalho realizado pela Cooperativa Paulista de Teatro, desde 1997 com a 1a Mostra Brasileira de Teatro de Grupos, seguida da 2a Mostra Brasileira de Teatro de Grupo, em 1998, e que ganhou nova dimensão com as Mostras realizadas a partir de 2006, com o patrocínio da Petrobras.