janeiro 27, 2010

Falta de apoio faz produtor cultural abandonar a atividade

Por Renato Fernandes

O produtor cultural Robson Marques anunciou na segunda-feira (25), que está deixando de operar, apontando como razão  a falta de apoio da Secretaria Municipal de Cultura. “Não trabalho mais como produtor enquanto continuar essa gestão”, com essas palavras iniciou a entrevista.

Segundo ele, o problema começou no ano passado quando não conseguiu ser atendido, adequadamente, para discutir detalhes do projeto “Primavera Cultural”. “Fiquei decepcionado com a postura da Secretaria de Cultura de uma forma geral. Decidi que, se é para ser atendido da forma como eu fui, é melhor não trabalhar mais como produtor aqui em Botucatu. Pelo menos, enquanto não tiver uma mudança séria da secretaria, na minha opinião, a solução é mudar a figura do secretário”, declarou

A trajetória de Marques como produtor teve início em 2006. Desde então , ele responde por eventos como: Toquinho, Leila Pinheiro, O Retrato de Doryan Grey, O Teatro Mágico, Nany People, Zé Geraldo, Ballet da Ucrânia, entre outros.

O profissional garante que sempre trabalhou com produção artística por gostar da atividade. “É algo que gosto e que colabora com o meio cultural da cidade. No segmento que atuo, teatro e shows intimistas o objetivo não é viver profissional e unicamente das produções. O ano passado encontrei uma série de dificuldades, posturas inadequadas com relação ao apoio. Bastava  abrir as portas para ouvir o que temos a dizer. Houve um menosprezo quanto ao trabalho do produtor, aí não! Enquanto a postura da Secretaria de Cultura for essa eu encerro as minhas atividades”, reforça.

Questionado sobre as razões específicas dessa decisão, o empresário explica que em administrações anteriores o sentido da palavra parceria era melhor interpretado. “Nos consideravam como parceiros mesmo. Não no sentido de dar alguma coisa, mas trabalhar junto de forma administrativa ou logística, ou simplesmente ouvindo o que tínhamos a dizer. Tudo começa pela falta de disponibilidade para ouvir. A única vez que fui atendido foi com hora marcada mas, com arrogância, de olho no relógio durante a reunião, atendendo celular e abrindo e-mail ao mesmo tempo. Se é para receber assim não receba”, reclama.

Diante do que considera menosprezo e mal atendimento, Marques tentou parceria com outras Secretarias e garante que foi melhor recebido na Subsecretaria Municipal de Turismo. “Percebemos que na mesma estrutura, na Subsecretaria de Turismo, deram maior atenção para as coisas simples e formalizamos parceria no mesmo dia. O que pedimos foi  intermediar o contato com a Secretaria de Esporte para alojamento, assinatura de um ofício para a Sabesp, a fim de facilitar o repasse de uma verba. São coisa que passei  mais de dois meses solicitando na Secretaria de Cultura sem retorno. O patrocínio da Sabesp, que necessitava apenas de um ofício, caiu de R$ 2 mil para R$ 900, o que refletiu no valor de ingressos”, diz.

Além do relacionamento tumultuado entre o produtor e o secretário da Cultura, também são citados motivos técnicos para a desistência. “Faltando dois dias para um evento me ligaram do teatro comunicando que não teriam o iluminador. Eu precisaria disponibilizar um técnico. Era um dos principais eventos da ‘Primavera Cultural’, o show com o ‘Bee-Gees Cover’, e de uma hora para outra não tem mais o iluminador.  Teriam que, ao menos, descontar esse valor da contratação do técnico da taxa de teatro, era uma situação de emergência. Lavaram as mãos e deixaram por conta do produtor”, relata.

Para ele é importante a população tomar conhecimento das razões pelas quais está deixando a produção de espetáculos. “Minha intenção é comunicar a população. Têm pessoas que conhecem o meu trabalho e por respeito ao público tenho que fazer esse comunicado. É importante que saibam o motivo pelo qual estou parando com as atividades. Esse comunicado também será  disparado em meus contatos de e-mail”, justifica.

Diante de tantas dificuldades, Marques encaminhou, no dia 28 de setembro, um ofício ao prefeito municipal, João Cury Neto, onde solicita esforços para a formalização de uma parceria. “O ofício não resultou em nada. Após isso, cheguei a  conversar com o prefeito e mostrei o ofício, concordou com o exposto e disse que iria falar com o secretário (Osni Ribeiro), pediu uma relação prioridades que a Prefeitura poderia ajudar. Não estava pedindo dinheiro, mas sim o apoio para alojamento e veículo para translado, além do ofício para a sabesp”, afirma.

Marques ainda deixa claro que alguns eventos que fizeram parte da “Primavera Cultural”, foram repassados a ele através da administração do Teatro Municipal Camillo Fernandez Dinucci. “Ligaram lá (Municipal) e fizeram o agendamento da pauta, depois procuraram um produtor, isso é normal. Ligam para confirmar a disponibilidade de data e em seguida pedem referência de produção local. Cheguei a ouvir que nem era eu realmente quem estava trazendo o evento. Que a atração viria de qualquer forma, e isso não é verdade, as companhias fazem o contato, mas se não tiver um produtor local eles não se apresentam”, ressalta.

O empresário faz questão de citar as atribuições do produtor local. “Cabe aos produtores locais a captação de patrocínio, divulgação da atração, preparar o camarim, reservar o dia para receber o artista, cuidar das negociações burocráticas e toda a logística de permanência dos artistas na cidade. Enfim, é tudo o produtor local, o artista acompanha o trabalho de longe. Quando ele (Osni Ribeiro) me recebeu, disse que não é interesse da Secretaria fazer produção, mas então, que exista um reconhecimento sobre a importância do trabalho. É necessário que revejam as maneiras para se garantir a ajuda. Cheguei a ouvir o seguinte: Porque ajudar se você ganha com isso? Não vejo problema em receber pelo trabalho? Sempre defendi que se fizessem as contas abertas, se tiver renda extra, destinamos para doação. Repito: não vejo problema em ganhar dinheiro trabalhando”.

As reclamações e o ofício acabaram garantindo que o prefeito João Cury estabelecesse contato com o produtor. “O prefeito me ligou dizendo que o Osni me procuraria, mas até agora nada”, garante.

Secretário da cultura diz que está disposto a conversar sobre o caso

Em nota, o secretário municipal da Cultura, Osni Ribeiro, disse que está disposto a covnersar.

Confira a nota: “Eu lamento a posição do Robson de deixar o trabalho de produção, são profissionais necessários para a cena cultural do município, mas me espanta a maneira como ele coloca a sua relação com a Secretaria. Todos os produtores que se utilizam do Teatro Municipal tem igual tratamento. O Administrador do Teatro pode dar maiores detalhes, mas o procedimento é esse:

   1. As companhias ou artistas fazem uma pré-agenda no Teatro Municipal, essa agenda gera um processo normal de locação do espaço, cujas receitas são depositadas no Fundo Municipal de Cultura.

   2. Alguns solicitam informação sobre produtores para apoio local, a administração do teatro fornece uma relação de produtores cadastrados.

   3. À partir daí, os contatos e entendimentos sobre o trabalho fica entre artistas e companhias e os produtores locais. Não há interferência da Secretaria ou da Administração do Teatro nesse processo.

   4. Os produtores locais são remunerados diretamente pelas companhias ou artistas que se utilizam de nosso equipamento cultural.

Nenhum dos outros produtores locais se utiliza da prática de solicitar apoio logístico à Secretaria quando realiza eventos com caráter comercial. É justo que o profissional receba pelo seu trabalho mas é necessário que sejam adotadas práticas comuns nessas relações. Nesse caso específico havia eventos que já tinham pré-agenda no municipal e adotamos a mesma política que foi utilizada em mais de uma centena de outros espetáculos que aconteceram no Teatro.

Assim, não consigo identificar a citada falta de apoio e nem mesmo questões pessoais nessa situação.

Não é nossa intenção causar descontentamento ou alimentar situações que não colaboram para a construção de nosso movimento cultural e me coloco a disposição para atender ao Robson ou a qualquer outro produtor que  tiver interesse, para esclarecer esses e outros procedimentos.”