janeiro 30, 2010

A macumba, o prefeito e seu motorista

A notícia chegou na redação mais rápido que uma bala.  Do outro lado da linha a fonte afirmava em tom de indignação: “O Prefeito está jogando lixo no rio”.

A reportagem não teve dúvidas foi até o local e encontrou, nas proximidades, um prédio em construção ao lado da ponte onde teria ocorrido o delito.

O número de testemunhas era muito grande, todos os 30 funcionários da obra afirmaram terem visto o carro oficial do município estacionar ao lado da ponte e dele descer o motorista com um saco suspeito, olhar para um lado e para o outro e depois arremessar o estranho pacote no leito do rio.

Por incrível que pareça. Essa história é baseada em fatos reais

A indignação tomava conta da obra, todos queriam saber porque o prefeito, representado pelo seu motorista, teria jogado lixo no principal rio da cidade.

De volta para a redação a tarefa agora era ouvir o outro lado e descobrir o que havia acontecido. O repórter tinha uma única certeza, o caso não se tratava de alucinação coletiva.



O primeiro passo foi ouvir o Secretário de Comunicação que ficou impressionado com a história e afirmou que não acreditava na história, para ele o prefeito era um homem íntegro e nunca lançaria qualquer tipo de sujeira nas águas do pobre rio.

Mesmo defendendo a inocência do chefe do executivo o prudente secretário pediu algumas horas para conversar com a autoridade máxima do município e seu motorista. Após meia hora de espera a resposta chegou, o secretário solicitava uma conversar pessoal com o repórter. Bate papo que foi agendado para o final da tarde. Além disso ele também pedia que a matéria não desse entrada na gráfica antes do ecnontro.

A angustiante espera chegou ao fim. Por volta das cinco e meia da tarde o motorista do rpefeito entra na redação cabisbaixo acompanhado do secretário, e pedem para falar com o chefe de redação o qual os recebem prontamente.

Após alguns minutos o repórter é chamado para participar da reunião, olha ao redor e percebe o chefe de redação com um leve sorriso nos lábios, sente o desespero do motorista e a seriedade no olhar do secretário.

- Conte para eles o que aconteceu – Pede o secretário em tom autoritário, porém amigo.

- Bem... - Começa ao motorista sem tirar os olhos das pontas dos sapatos – Acordei na manhã de ontem e na porta de minha casa tinha umas velas coloridas e um frango estranho dentro de uma travessa, como sou evangélico procurei o pastor que me recomendou que me livrasse daquele “trabalho” jogando tudo em água corrente. Fiz o que ele me pediu, não sabia que o escândalo seria tão grande.

As explicações prosseguem e o motorista explica que na noite anterior havia levado o prefeito para uma longa viagem e retornou tarde da noite e apenas por isso, acabou levando o carro oficial para a casa.

- Eu estava indo trabalhar, o prefeito não estava comigo e nem sabe dessa história. Por favor, não coloca nada no jornal não! – pede.

O secretário é enfático ao afirmar ao motorista – Se isso for publicado você com certeza estará na rua. Por mais que o prefeito goste de seu trabalho.

O chefe de redação questiona o repórter e quer saber se ele concorda em ter todo o trabalho de coleta de informações perdido.
- Tenho compromisso com o pessoal que me relatou a história, não posso segurar a notícia não. Lamento a situação, mas acho que você poderia ter tido mais cuidado e jogado essa macumba em outro lugar.

A sala é tomada por um minuto de silêncio e então o chefe de redação encontra uma solução – O repórter tem um compromisso com a fonte e eu com a notícia, mas se as testemunhas te desculparem e acharem que você não tem culpa não temos razão para publicar a história – Sugere o editor.

- Vamos até o local agora mesmo e se o repórter achar por bem revelar as suas fontes ele (o motorista) não verá problema nenhum em pedir desculpas. Não é mesmo? – Questiona o secretário, esperando um posicionamento do servidor público que responde com um arrependido sim.

O grupo sai em comitiva, no carro oficial segue o secretário de imprensa e o motorista torcendo para que as fontes perdoem o erro do pobre servidor municipal, em outro veículo segue o repórter e o fotógrafo torcendo o contrário e aguardando uma bela foto do pobre motorista se desculpando e recebendo uma negativa – Essa será a manchete – pensa o repórter.

A chegada da comitiva paralisa as atividades do canteiro de obras. O motorista desce do carro e precisa de um incentivo do secretário de comunicação para explicar toda a história.

Envergonhado, mas com a certeza de que o perdão significa a manutenção de seu emprego ele repete toda a história narrada na redação e pede desculpas.

Os funcionários se entreolham, discutem o assunto baixinho, alguns dão altas risadas. O motorista sente o rosto ficar vermelho de vergonha e logo chega o chefe de obras, que bate nas costas no motorista.

- Que isso não se repita. É lógico que entendemos as suas explicação – E sai dando gargalhadas da situação.