abril 08, 2010

Estaria John Lennon Vivo, hoje?

 *Tom Capri - Você encontra este texto também em meu site  www.virobscurus.com.br, no link http://www.virobscurus.com.br/secao.asp?id=1&c_id=136

Já andaram insinuando, inclusive em livro publicado nos EUA, que foi a CIA a responsável pela morte de John Lennon. Exageros à parte, pelo menos procede certa desconfiança de quem suspeita que isso realmente ocorreu. Mark Chapman, que baleou Lennon em 8 de dezembro de 1980 em frente ao edifício Dakota (onde ele vivia, na W. 72nd St., ao lado do Central Park, em Nova York), podia perfeitamente ser uma dessas cabeças feitas pelos serviços de inteligência dos Estados Unidos, por que não? E nem mesmo Chapman tenha se dado conta disso. Não é assim que as coisas funcionam na América?

Tenham sido a CIA e o FBI responsáveis ou não pela morte de Lennon, não será nem um pouco estranho se, um dia, a suspeita de que houve mesmo envolvimento dos serviços de inteligência venha a se confirmar. Por uma razão bem simples: em seus últimos anos de vida, John Lennon, que já havia trocado a droga por uma postura madura diante dela, estava caminhando a passos largos para a consciência e vinha, com suas atitudes, irritando consideravelmente o establishment, ao assumir claramente posições de esquerda e envolver-se com militantes antiestablishment. Os EUA tinham bons motivos para se livrar dele. Se não, vejamos.


Seria no mínimo uma grande mentira dizer que John Lennon já havia abandonado total e radicalmente a droga, quando foi assassinado. Deixar a droga, para John, não era recolher-se numa redoma de vidro e, assustado, nunca mais olhar para ela, como se estivesse diante de um bicho-papão.

Não. Para John, deixar a droga era assumir uma atitude responsável diante dela, não hipócrita, o que não quer dizer abandoná-la totalmente. Era simplesmente conscientizar-se de que a droga não é nenhuma saída. Mais do que dizer um “não” definitivo à droga pesada, era tirar proveito de toda a experiência de ter vivido e convivido com as drogas, durante os anos 60 e 70, desde quando se juntou a Paul, Ringo e George para formar os Beatles. Já perto de seus últimos dias, John disse que a droga não era o caminho e que ele havia se encontrado, de fato, em si mesmo e não nela.

Fato é que John incomodava e muito. Preste um pouquinho de atenção na letra de Imagine, canção composta por ele logo depois que os Beatles se desfizeram:

“Imagine não haver paraíso. É fácil, se você tentar. Nenhum inferno embaixo de nós. Já acima de nós apenas o céu. Imagine todos vivendo para o dia de hoje. Imagine não haver países. Não é difícil, não. Nada para matar ou pelo que morrer. E nenhuma religião também. Imagine todos vivendo em paz. Você pode me achar um sonhador, mas eu não sou o único. Espero que um dia você se junte a nós. E o mundo será um só. Imagine não haver propriedades. Me pergunto se você consegue. Nenhuma necessidade de ganância ou fome. Uma irmandade entre os homens. Imagine todos compartilhando o mundo. Você pode me achar um sonhador, mas eu não sou o único. Espero que um dia você se junte a nós. E o mundo vai viver como uma coisa só.”

Convenhamos: para a CIA, aí estava um prato cheio. Mas John foi muito mais longe. No último show que gravou com Yoko, falou muito. Fez inúmeras citações de Hitler, sem dizer quem era o autor. Eram citações vangloriando instituições como a propriedade e a família. Lá pelas tantas, ele surpreende o público, ao dizer: “Olhe, isto foi dito por Hitler”, querendo dizer algo mais ou menos assim: “Não foi dito pelo seu pai, seu avô, sua mãe ou qualquer empresário ou político americano, não. Foi dito por Hitler, mesmo.”

A gota d’água, com certeza, foi a demonstração clara de que ele havia compreendido efetivamente que a droga era um problema social, posto pela realidade objetiva. Daquele momento em diante, com certeza passou a ficar diretamente na mira da CIA, a exemplo de tantos outros (como os Kennedy, Marilyn Monroe, Martin Luther King?). Certa vez, John disse:

“Bem, o problema com o álcool ainda é pior. Eu acho que o problema das drogas é um grilo, mas se nós não tivéssemos experimentado o que experimentamos, os que estão agora passando pela viagem da droga teriam sido alcoólatras. Do jeito que está a sociedade, parece que todo mundo precisa de alguma coisa. É por causa da pressão. Então, teria sido com o álcool ou com qualquer outra coisa. O problema não é o que eles estão tomando, não é a droga. O problema é o que faz eles tomarem o que estão tomando.”

Aqui temos, com desenvoltura, uma posição muito consciente a respeito das drogas. Esta postura crítica diante delas já aparece embrionariamente em Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, o primeiro álbum de rock da história da música e que este ano completa (junho de 2010) 44 anos.

Se examinarmos detidamente as letras de Lucy in the Sky with Diamonds e With a Little Help from my Friend, que constam do álbum, é fácil constatar que, ali, o enfoque diante da droga é muito mais de condescendência e apreço do que de pesar. Para John, que, dos quatro, foi quem mais ousou levar o tema para as letras das músicas do conjunto, a droga já aparecia, à época de Sgt. Pepper’s, como o único bálsamo capaz de nos afastar dessa chatice que é hoje, e cada vez mais, o real.

Lucy in the Sky with Diamonds já era uma viagem, ou melhor, uma fuga da realidade entediante. Mais: um mergulho no universo dos sonhos. Os Beatles sempre negaram, mas as iniciais do título da canção não mentiam: LSD (L de Lucy, S de Sky e D de Diamonds) era uma homenagem ao ácido, que andaram experimentando nos anos 60. Veja como tudo isso fica muito claro, na letra:

“Imagine-se num barco sobre um rio, com árvores de tangerina e céu de marmelada. Alguém chama, você responde languidamente. É uma garota com os olhos de caleidoscópio e flores de celofane amarelas e verdes sobre a cabeça. Procure essa garota com o Sol em seus olhos e ela desaparecerá. É Lúcia no céu com diamantes. Siga-a ponte abaixo, até a fonte mais próxima, onde gente perdida na rotina (‘rocking horse people’) come tortas de marshmallow. Cada uma delas sorri, enquanto você desce lentamente rio abaixo, entre as flores que crescem para o alto de forma incrível. Táxis de papel de jornal aparecem à margem, esperando levar você embora. Entre em um de seus bancos traseiros, com a cabeça nas nuvens, e aí você já foi. (Refrão) Lúcia no céu com Diamantes. (Volta a letra) Imagine-se num trem em uma estação com porteiros de plástico, usando gravatas espelhadas. De repente, alguém está lá, na catraca. Uma garota com os olhos de caleidoscópio.”

Aí está uma verdadeira viagem feita sob o efeito do ácido. Temos aqui, com clareza, o lado fantástico da droga: o da viagem. Já que o real não nos dá acesso à felicidade aqui na Terra, vamos procurá-la fora do real, na droga, viajando. É o famoso “barato”.

Vale dizer: por causa da violência do dia-a-dia, da hostilidade, da mesmice e do tédio, provocados pela guerra do “um contra todos”, presente no cotidiano (diga-se, pelo mundo real em que vivemos), há que mergulhar na  ilusão, num vôo cego em direção às drogas, no “barato” que esta traz, viagem que é muitas vezes sem retorno (Janis Joplin, Jimmy Hendrix, entre tantos outros).

Essa visão romântica da droga aparece também com clareza em A Little Help from my Friend (my friend – minha amiga – é, aqui, a maconha), canção também do álbum Sgt. Pepper’s. Nela, a droga surge com mais clareza como a grande companheira que faz você fugir da solidão e das dores existenciais do “chato mundo real”.

Nesse ponto, estou totalmente com o poeta paranaense Paulo Leminski, em Distraídos Venceremos: “Podem ficar com a realidade, esse baixo astral em que tudo entra pelo cano. Eu quero viver de verdade, eu fico com o cinema americano”. Veja a letra de A Little Help...:

“O que você acharia, se eu cantasse desafinado? Você iria se levantar e me deixar ali? Empreste-me seus ouvidos e eu cantarei para você uma canção. Vou tentar não cantá-la desafinado. Assim, eu vou ‘levando’, com uma pequena ajuda de minha amiga. Eu fico legal com uma pequena ajuda de minha amiga. Vou tentando, com uma pequena ajuda de minha amiga. O que eu faço quando meu amor não está aqui? (Coro) Você está preocupado em ficar sozinho? (Voz solo) Não, eu vou ‘levando’, com uma pequena ajuda de minha amiga. (Coro) Você precisa de alguém? (Voz solo, em resposta) Eu preciso de alguém para amar. (Coro) Pode ser qualquer um? (Voz solo) Eu quero alguém para amar. (Coro) Você acredita no amor à primeira vista? (Voz solo) É claro, estou certo de que isto acontece a toda hora. (Coro) O que você vê quando a luz se apaga? (Voz solo) Não posso contar, mas eu sei que é uma coisa só minha. Oh, eu vou ‘levando’ com uma pequena ajuda de minha amiga. (Coro) Você precisa de alguém? (Voz solo) Eu quero alguém para amar. Eu vou ‘levando’ com uma pequena ajuda de minha amiga. Sim, eu vou ‘levando’ com uma pequena ajuda de minha amiga. Com uma pequena ajuda de minha amiga...”

Estabelece-se, portanto, já em Sgt. Pepper’s, um claro divisor de águas. A droga não é mais vista como algo totalmente incompreendido, que se ingere ou se experimenta sem se saber por quê. Não, aqui a droga é claramente, já, uma fuga. Ela aparece como uma necessidade consciente de quem já não consegue reunir forças físicas (e muito menos mentais) para enfrentar, sozinho, a dura parada que é a vida entediante aí fora, a vida da competição, das frustrações diárias e do sufoco que é a luta pela sobrevivência no establishment, marcada pela violência e violação que é o roubo de força de trabalho em escala (o fenômeno da mais-valia).

É evidente que a CIA não estava gostando nem um pouco disso. Se John Lennon havia publicado um anúncio de página inteira contra a guerra do Vietnã, no The New York Times, na época do conflito, o que não poderia fazer dali em diante, já consciente como estava, antes de morrer, do que realmente significava a droga?

Era de prever que o próximo anúncio posto por John num jornal fosse algo mais ou menos com esse texto: “Não condene a droga nem o drogado. Condene a situação. Provoque, incite. E ache a causa. E a destrua. É ela que faz com que as coisas sejam assim como são hoje. É ela que faz de você um drogado.” Já pensou?

A droga, em suma, já aparecia, nos Beatles, como uma resposta para a miséria e a angústia mentais presentes na sociedade moderna. E John sabia que a droga não era a melhor resposta, porque já a havia experimentado exaustivamente e se dado conta de que se tratava de mera fuga, inútil e às vezes fatal. Ele havia chegado à essência do problema. E isso não interessava. É por isso que cabe a pergunta: “Estaria John Lennon vivo, hoje, se não houvesse o assassinato daquele triste 8 de dezembro de 1980?” A resposta está nas partes 2, 3 e Final.

* Tom Capri (Everton Capri Freire) é jornalista, sociólogo e dramaturgo. Trabalhou no jornal O Estado de S. Paulo, onde foi, de 1968 a 81, editor de esportes, com passagem pelas seções de arte, local e economia, como repórter e copidesque.

Foi professor de 3o e 4o anos, cadeira de jornalismo impresso, das Faculdades Integradas Alcântara Machado (Fiam), nos anos de 1980. Nasceu em Curitiba a 6 de outubro de 1948, filho de Jahyr Freire e Yole Capri Welch. Tem três irmãos: Herson Capri Freire (ator), José Carlos Freire (Tribunal de Contas) e Roberto Carlos Freire (músico).