abril 12, 2010

Sílvia Sasaoka: apoio e estímulo para artesãos e designers

Há aproximadamente 10 anos Sílvia Sasaoka decidiu trabalhar para mudar a realidade de artesãos e comunidade que têm no trabalho manual sua base de sustentação, cultura e renda, promovendo o intercâmbio entre artistas e designers.
Foi atuando como voluntária em projetos sociais realizados  em favelas de São Paulo, que encontrou a necessidade de garantir aos artesãos a manutenção de sua cultura e o incentivo à geração de uma concepção mais abrangente, atendendo padrões atuais de qualidade e funcionalidade.

Atualmente, ela mantém um espaço para a realização de oficinas, workshops e exposições no Bairro Demétria, a oficina Straat Buriti, onde abre as portas para a reciclagem e aprimoramento de artesão  e designers.

Sasaoka presta consultoria à Ongs, órgãos de governo e empresas, e atua há oito anos como consultora do Artesanato Solidário, Ong fundada pela ex-primeira dama do Brasil, Ruth Cardoso.

O Grito Notícias- Quando você percebeu a necessidade de unir artesãos e designers?
Sílvia Sassaoka -
Em 2000 eu trabalhava como voluntária em uma favela. Na comunidade existiam uma marcenaria e um grupo de artesãos que atuavam com couro, ambos encontravam dificuldade para vender suas peças. Foi então que trouxemos 20 estudantes de designers da Holanda para trocar experiências. Percebemos que esses artesãos não tinham acesso às informações, estavam desconectados do mercado e ancorados de forma negativa ao passado. Os estudantes moraram com os artesãos durante um mês. Foi a partir de então que compreendi que era necessária a convivência entre eles. Os estudantes querem se aprofundar. Entrar em contato com o real trabalho dos artesãos, já da outra parte existe uma carência de atualizações técnica. Ambos deram um salto.

O Grito Notícias – Qual a relação entre tradição e técnica, no trabalho dos artesãos?
Sasaoka –
Atualmente, o artesão urbano utiliza sua técnica como terapia ocupacional. Ele até tem alguma memória, mas geralmente ela se perdeu com o tempo deixando apenas o gosto em se trabalhar com as mãos.  Todas as avós fazem crochê ou gostam de pintar, essa é uma memória dos artesãos, mas agora eles buscam novidades nas emissoras de televisão ou em bancas de jornal.  O que é oferecido nesses ambientes é massificado e, muitas vezes, patrocinado por indústrias que só querem vender matéria prima.  Outro dia fui em uma feira e encontrei até índios fazendo origami.

O Grito Notícias – Existe então uma carência criativa?
Sasaoka –
Ninguém mais está criando. Isso ocorre por preguiça mental e desconexão com a tradição. Os avôs e bisavôs sempre possuem histórias sobre a forma elaborada do artesanato, mas ultimamente existe uma pressa em produzir aliada à vontade de vender, no fim, não consegue comercializar nada porque todos estão produzindo a mesma coisa. Deixaram de pensar, elaborar e desenvolver novidades, existe uma preocupação maior em fazer para vender. Falta uma ligação com algo mais simbólico, tem que ter amor ao artesanato e vincular isso ao estilo de vida. Se criar essa relação não tem como deixar de gostar do trabalho. Antes existia uma relação com algo superior, muitos artistas dedicavam suas criações a Deus, doavam ao padre ou presenteavam os amigos, era outra relação tinha algo simbólico que ia além do materialismo.

O Grito Notícias – Onde estão artistas que ainda mantêm essas características?
Sasaoka –
Os mestres, aqueles que realmente possuem o conhecimento, mantêm a tradição na produção, e amor pelo trabalho, geralmente são aqueles que fazem suas próprias ferramentas. Nas oficinas, os bons se preocupam em limar as ferramentas e fabricar suas peças com perfeição e despreocupação com o retorno financeiro.

O Grito Notícias – Mas não existe essa preocupação em crescer e aprimorar?
Sasaoka -
O artesão não se preocupa muito em investir na reciclagem. Já ouvi de muitos, que eles preferem copiar. É uma cultura, enquanto pensarem que copiar é algo correto, a qualidade vai ficar lá embaixo. É necessário que se estabeleça o conceito de que, o autor pesquisou e acumulou conhecimentos de alguma forma. Pular todas as etapas com a cópia é um roubo. Hoje todos copiam da internet e isso não está acontecendo só no artesanato.

O Grito Notícias – O intercâmbio entre artesãos e designers pode mudar essa realidade?
Sasaoka –
É necessário tomar muito cuidado para ver o limite da criação e da colaboração. O designer do programa que desenvolvemos vai até a oficina do artesão para conhecer o universo do artista, as ferramentas, materiais, técnicas e produtos. Ficam juntos durante um período para criarem algo, às vezes o designer observa o que o artesão faz e o orienta, deixando a criação ao artesão. Às vezes o artesão elaborou e fez o produto e cabe ao designer realizar alguma adaptação, eles dialogam e a autoria fica conjunta. Os limites do processo de criação têm que ser consciente e transparente.