junho 23, 2010

Marcos Plonka o famoso Samuel Blaustein, fala sobre carreira, teatro e televisão, em entrevista

O blog O Grito Notícias através do jornal Diário da Serra entrevistou o ator e humorista Marcos Plonka, consagrado pelo personagem Samuel Blaustein do clássico programa Escolinha do Professor Raimundo. O encontro entre o ator e a reportagem ocorreu no dia 17 de junho de 2010, em uma das salas de entrevistas do jornal.

Plonka nasceu numa família judaica no bairro do Tatuapé, seus pais são poloneses. Quando criança sonhava em ser radialista, mas o que conseguiu foi um papel no Teatro da Juventude, de Tatiana Belinsky e Júlio Gouveia.

Plonka iniciou sua carreira na TV Tupi, na década de 1950, com o amigo Elias Gleiser.

Confira os principais trechos da entrevista:

O Grito Notícias - Sua passagem pela região de Botucatu, tem algum outro motivo especial?
Marcos Plonka -
Viemos tratar sobre a campanha de doação de órgãos a Hepatite ‘C’.
Estou trabalhando e disposto a fazer alguns shows beneficentes na região. Onde, e como, eu puder ajudar estarei presente. No momento estamos conversando para agendar alguns shows, conversei com a diretora da área artística da Unesp e ela deve acertar algo em breve . Também tenho conversado com produtores de São Manuel, para levarmos um show ao clube da Cidade. São mais de 4 mil associados, na Capital, raramente vemos clubes com tantos pagantes. Os clubes estão quebrando e a explicação é lógica, o pessoal deixou de frequentar os clubes, pois encontram tudo nos condomínios.


O Grito Notícias - Essa não é uma tendência? A população não está ficando mais introspectiva, as salas culturais cada vez menores?
Marcos Plonka -
Existem cidades que você não consegue levar público, a população não está acostumada. Em Batatais existe um teatro com 500 lugares, mas que nunca lotou, o maior público que tiveram foi de 50 pessoas. Em Araras, o Quércia fez o “Teatro da Sogra”, mas ele não contratou um arquiteto especialista. Pagou o Oscar Niemeyer, que é maravilhoso, mas não sabe fazer teatro. Costumo brincar, o teatro fica em Araras e a bilheteria em leme. Atrás do palco não existe espaço para passagem; o Jô Soares, por exemplo teria problemas para ir de um lado ao outro. As entradas para o camarim é em escadas em caracol de ferro, e faz barulho quando usamos. É bonito, mas não é funcional e ninguém vai. A população não está acostumada a ir ao teatro.

O Grito Notícias - Como você analisa a televisão da atualidade e os programas de humor?
Marcos Plonka -
A televisão ficou burra há muito tempo. Só é inteligente na área técnica, na questão artística convivemos com a falta de talento. Fiz a ‘Escolinha do Raimundo’, depois o grupo de atores foi para a Record na ‘Escolinha do Barulho’ e há um tempo apareceu a ‘Escolinha Muito Louca’ da Band, com um monte de mulher com a bunda de fora. Não tenho nada contra, ainda sou do tempo em que se gostava de mulher, mas existe um problema: em um programa de humor o principal é ter humor.

O Grito Notícias - Mas existe uma nova safra de humoristas surgindo, ou não?
Marcos Plonka -
Assisti um programa de improviso na televisão e o que apareceu foi um monte de idiota em uma festinha, um tentando ser mais engraçado que outro. Tem muita gente se achando engraçada, muitos humoristas de final de semana. Considero o tal ‘stand-up’, uma palavra idiota. Uma vez me perguntaram se eu fazia ‘stand-up’, respondi prontamente: ‘sim. Não faço humor deitado’. É uma palavra americana, para um tipo de humor que fazemos há muito tempo, o Chico Anísio, o Zé Vasconcelos, enfim, toda uma safra de humoristas que fazem seus shows sozinhos e isso não é ‘stand-up’. Para mim é apenas uma palavra que está na moda.
O CQC é diferente, um humor inteligente. Temos visto muito humor grosseiro. O humor do Nordeste, é uma pancada na cabeça, falam dos órgãos sexuais de maneira ‘xula’. Fiz júri no programa Tom Cavalcanti e cheguei até a questionar se colocariam no ar. O pessoal conta piada e o tempo todo a audiência escuta o tal ‘Bip’, parecia telefone ocupado.


O Grito Notícias - Não seriam os “Reality Shows” uma das razões dessa banalização da televisão?
Marcos Plonka - Esse é um problema! Os ex-participantes de reality vão às festas como convidados e os idiotas, pagam R$ 15 mil, para que essas pessoas fiquem no evento como grandes astros.
O talento me preocupa demais, fico muito insatisfeito com a ausência do talento. Atualmente não temos peça de reposição, os humoristas antigos morreram. Vamos pegar como exemplo a “Escolinha do Professor Raimundo”, morreram Walter D´ávila, Brandão Filho, Rogério Cardoso, Zezé Macedo, entre outros. Tenho uma foto com todo o elenco, morreram 12 ou 15 e não temos reposição.

O Grito Notícias - Esse é um programa para se sentir falta? O Chico Anísio no comando daquele elenco de humoristas é algo que você sente certo saudosismo?
Marcos Plonka - Não sinto falta apenas do amigo Chico Anísio, mas também do ator. Em minha opinião ele é o maior humorista do Brasil. Não é um imitador, todos os tipos que interpreta foram criados por ele. São mais de 140 personagens. Atualmente o Chico está no Zorra, interpretando o ‘Vampiro Brasileiro’ e deverá retomar o ‘Justo Veríssimo’, mas ele enfrenta um problema sério, o enfisema pulmonar.
Não tem como chamar de volta os antigos, só mesmo se for no centro espírita. Não temos mais humoristas, o mais novo é o tom Cavalcante.
O CQC é outro estilo, o que quero dizer é que não temos mais elenco para montar um programa de humor com talentos, como tínhamos com o Chico Anísio.

O Grito Notícias - Você sente que se tornou referência para quem se inicia no humor? Fizeram escola?
Marcos Plonka - Somos citados, mas a questão é que para os mais novos o humor é diferente, muitos fazem ações sem graça, apelativas e dizem besteiras.
Diário da Serra - Pensa em retornar para a televisão?
Marcos Plonka - Os diretores de televisão acham que os mais velhos perderam o talento. É o contrário do que acontece no cinema e teatro americano, onde os grandes atores, apesar de velhos estão trabalhando em grandes clássicos.

O Grito Notícias - Você considera a televisão como uma segunda casa?
Marcos Plonka - Este ano comemoro 54 anos de carreira. Comecei na TV Tupy, canal 3. Com o passar dos anos acompanhei a evolução técnica. Ao longo de minha carreira fiz grandes novelas e só não continue nas novelas, na Rede Globo porque não queria morar no Rio de Janeiro e para participar das novelas era necessário residir no Rio.
Na infância eu queria ser radialista, não existia televisão, era teatro ou rádio, mas como disseram que eu não tinha voz entrei para o teatro da juventude. Era eu e o Elias Gleiser, participando de produções da Lapa, no teatro da Colônia, em um clube chamado Circo Israelita.
Texto e fotos: Renato Fernandes