julho 04, 2010

Entrevista com Juca Chaves: as histórias do Menestrel

Jurandyr Czaczkes, o popular Menestrel do Brasil, Juca Chaves, esteve em Botucatu no dia 18 de junho, para apresentar o show “Jubileu de Ouro – 50 Anos do Menestrel”, no Teatro Municipal Camillo Fernandez Dinucci. Na véspera da apresentação, o cantor e humorista concedeu entrevista à reportagem do blog O Grito Notícias e jornal Diário da Serra.

Na ocasição, ele falou sobre a cultura nacional, política, hábitos, costumes, aproveitamdo para criticar a postura do brasileiro com relação ao futebol e Copa do Mundo.

A sua turnê pela região foi promovida pela Ferreira Eventos, e contou com shows em Jaú e Botucatu, ambas não tiveram grande público, cerca de 300 pessoas cada, entretanto, segundo o produtor e o próprio artista, o importante foi a qualidade da plateia.

Chaves tem formação em música erudita e começou a compor na infância, iniciando a carreira na década de 50, com modinhas e trovas em estilo suave.

Nos anos 60 montou um Circo nas proximidades da Lagoa Rodrigo de Freitas, Rio de Janeiro, onde apresentava o show Menestrel Maldito.

Crítico do Regime Militar, da imprensa e do mercado fonográfico, acabou sendo exilado em Portugal, na década de 1970, onde passou a incomodar o governo de Salazar, motivando uma nova mudança, agora para a Itália.
Dentre suas canções mais conhecidas estão “A Cúmplice”, “Menina”, “Que Saudade”, “Por Quem Sonha Ana Maria” e “Presidente Bossa Nova”.

Juca Chaves tem duas filhas adotadas e dedicou parte do show na cidade a elas, interpretando a canção “Filhas do Coração”, e relatando ao público como foi o processo de adoção e suas ações em entidades de apoio à adoção no País.

Confira os principais trechos da entrevista:

O Grito Notícias - Em mais de 50 anos de carreira, já esteve em Botucatu outras vezes? Existem diferenças entre essa apresentação e as demais?
Juca Chaves - Essa é a terceira ou quarta vez que venho para Botucatu, nos últimos tempos. São 50 anos de carreira, uma trajetória que está começando agora. Para se ter ideia, estou para ser eleito artista revelação. 

Essa comemoração (Jubileu) é para que o aniversário passe rápido. Continuo fazendo sátiras da política, e agora, eles (políticos) estão dando mais motivos, fazem muitas burrices. Também sou pré-candidato e não posso falar muito sobre política em  minhas apresentações, portanto, mantenho muito forte as modinhas e piadas sociais.

O Grito Notícias - Você é um artista que enfrentou a Ditadura Brasileira e a portuguesa. Acredita que o Brasil enfrentou uma crise criativa com o final da ditadura?
Juca Chaves - O pessoal transformou a ditadura. Citam o fato como se fosse a base das desgraças nacionais, na verdade passei por várias censuras, inclusive anteriores à ditadura, a religiosa, a moral e em seguida a política. Essa última foi  mais fácil de driblar. Em seguida veio a ditadura econômica, dos meios de comunicação, essa é a que está durando mais tempo. 

Hoje, nosso grande problema é a decadência cultural. O Brasil está cada vez mais inculto e popular. Costumo dizer que  80% da população são semi-analfabetos e outros 20% são bêbados. Está na hora de começarmos a educar o povo. Ninguém mais lê jornal, o  jovem não lê nem legenda de filmes, não conseguem. O ensino é decadente e primário. 

Me lembro de uma frase famosa: “Quanto mais ignorante o povo mais fácil de ser domado”. Como dizia Mussolini : “Governar esse país é fácil, mas inútil”.

O Grito Notícias - Essa crise cultural reflete no público?
Juca Chaves - Outro dia, estava saindo de uma emissora de televisão, estive lá para divulgar um show, e uma menina me parou na rua com a seguinte interrogação: ‘ Você é aquele que trabalha na TV e que está fazendo uma coisa aqui?”.  

O teatro decaiu muito. Agora, quando aparece  um ator da novela, aí sim o público considera isso importante, mas nem fazem ideia de quem é ‘Bibi Ferreira’, não sabe que ela é a  verdadeira primeira dama do teatro brasileiro. Não conhecem nada e não estão preocupados. Quando você pega os jornais acaba caindo sempre na área de esportes. É só isso que dizem e pensam hoje em dia. Não se tem mais cultura.

O Grito Notícias - Falando em esportes, o que está achando da Copa do Mundo?
Juca Chaves -  No primeiro jogo do Brasil entrei em uma lanchonete, e tinha uma multidão em frente a um aparelho de TV assistindo o jogo, cheguei e brinquei: ‘Já sei! Vocês estão assistindo os cursos do segundo grau da TV educativa?’. É lógico que não estavam, Cultura não faz o povo parar para assistir televisão. O Futebol parou o Brasil e não é para paralisar tudo desse jeito.


Estamos falando em sediar a Copa de 2014, falam de estádio, mas antes tem que discutir se haverá uma Copa. Podemos enfrentar uma  revolução, nunca se sabe. O amigo do Lula, o Iraniano (presidente  Mahmoud Ahmadinejad) pode estourar uma bomba no País. Ou pior, o Brasil poderá ser cúmplice passar a ser um país caçado. Se o Irã estoura uma bomba atômica quem está apoiando isso é o Brasil, que é o único aliado, ao lado da Turquia, podemos ser cúmplice de uma guerra, um genocídio.

O Brasileiro paga milhões para o futebol, mas é incapaz de ajudar outros atletas que pedem patrocínio. Vemos muitos que parecem o Rocky Balbooa com o patrocínio da loja de carne. Só damos apoio depois que o cara é campeão, aí  colocam uma bandeira em sua costa.

O Grito Notícias - O que você acha da nova safra do humor nacional?
Juca Chaves - Não está em boa fase. Outro dia encontrei o Millôr Fernandes e ele me disse: “Estamos acabando Juca”. Esta cada vez mais raro o humor de qualidade, mas ainda temos o Millôr, Chico Anísio e os autores do programa do Jô, por exemplo. Os programas de hoje atinge o povo, mas tem que ver que povo. Os sem terras?

Tenho uma carreira de 50 anos,  estou sossegado. Não sou uma presença tão forte nos meios de comunicação, quanto na época que comecei, quando tinha a mídia toda nas mãos. Hoje é mais difícil  a mídia escolhe seus prestigiados. Por outro lado, é até melhor, passamos a fazer parte de uma elite. Estamos acabando por conta do público, não adianta ser bom para um público que não lhe entende.

O Grito Notícias - Em suas passagens por Botucatu, têm alguma história que se destaca?
Juca Chaves - Costumo recolher cães abandonados, pago veterinários, pet-shop e cuido do animal, depois entrego para algum amigo. Um conhecido me falou sobre uma fazendeira de Botucatu que ele conhecia, decidi dar a ela um dos cães que encontrei na rua.  

Quando vim fazer um show aqui fui muito bem recebido e me disseram que haveria um jantar, onde eu seria apresentado à sociedade. A fazendeira queganhou o  cão contou para todos que eu lhe tinha dado um cachorro, disse que era de uma raça russa, rara de alto pedigree.  Não sabia disso, e no show, inocentemente, contei a verdade. Relatei que trabalhava em uma instituição de proteção animal e expliquei a minha simpatia pelos vira-latas, que assim como as pessoas, são os melhores. Terminei o show e ninguém apareceu para me levar ao  jantar. Fiquei abandonado da mesma maneira que o cão de rua.

Fui para um restaurante (provavelmente o antigo Recanto do Ipê) encontrei um padre comendo e me sentei para jantar, foi quando ele me disse. ‘Soube que a cidade ficou muito triste com o senhor?’. Então me contou a história, disse que a mulher  foi para a igreja chorar. Coitado, o cachorro era lindo, mas era um vira lata.

O Grito Notícias - Como nasceu a tradição de entrar em cena e realizar seus shows descalços?
Juca Chaves - Na primeira vez que cantei para o Juscelino  Kubitschek entrei descalço, e curiosamente ele também tirou os sapatos. Cantei a música que fiz para ele, e que o  glorificou. Isso aconteceu antes da Bossa Nova, e Juscelino foi chamado de “Presidente Bossa Nova”,  eu era chamado de ‘Presidente da Bossa Nova”. 

Acho que recebi esse nome pelo meu jeito extravagante, acreditavam que  isso era ser bossa nova, enquanto que os cantores do gênero, aqueles que vieram depois eram todos de gravatinhas e terno, comportados e quadradinhos.

Momentos da apresentação em Botucatu