junho 28, 2011

Preservativo feminino é mal visto entre mulheres com HIV

Fatores associados ao uso e percepções de mulheres vivendo com HIV/Aids sobre o preservativo feminino foi o tema abordado pela pesquisadora Marli Teresinha Cassamassimo Duarte, professora do Departamento de Enfermagem da Faculdade de Medicina de Botucatu/Unesp (FMB) em um trabalho apresentado e premiado durante congresso nacional sobre doenças sexualmente transmissíveis. A apresentação oral, que concorreu na categoria “tema livre”, é um recorte da tese de doutorado da autora e conquistou o 2º lugar no evento.

A pesquisa foi apresentada no 8º Congresso da Sociedade Brasileira de Doenças Sexualmente Transmissíveis, realizado eu Curitiba-PR, entre os dias 18 e 21 de maio, concomitantemente com o 4º Congresso Brasileiro de Aids e o 1º Congresso ALAC/IUSTI Latino-América (associação da qual participam profissionais que trabalham com pacientes portadores do vírus HIV) cujo foco foi o impacto das DST na mulher.

Marli tem como orientadora em sua tese de doutorado a professora Lenice do Rosário de Souza, do Departamento de Doenças Tropicais e Diagnóstico por Imagem da FMB. Também colaboraram com a pesquisa a professora Cristina Maria Garcia de Lima Parada e a enfermeira Luciene Dantin.

Os levantamentos que compuseram o trabalho são realizados no Serviço de Ambulatórios Especializados e Hospital Dia “Domingos Alves Meira”, de Botucatu, vinculado a Unesp e mantido pela Fundação para o Desenvolvimento Médico e Hospitalar (Famesp). Tanto no trecho da tese apresentado no congresso como no restante da pesquisa são entrevistadas mulheres portadoras do vírus HIV. O trabalho premiado, especificamente, analisou o impacto da doença em sua saúde sexual e reprodutiva.


Foram avaliadas 192 mulheres com HIV atendidas na unidade e 55,7% afirmaram nunca terem usado preservativo feminino; 27 (14%) disseram nunca tê-lo visto e 22 (11,5%) indicaram que usavam regularmente. Para a autora do trabalho, outros aspectos identificados e que chamam a atenção negativamente é que 30% das entrevistadas descreveram o preservativo feminino como “esquisito”, “horroroso”, “assustador”, “estranho”, “grande” e “grosso”.

Também foram consideradas opiniões em relação ao uso e 17,5% disseram tratar-se de prática “desconfortável”, “incômoda” e “barulhenta”; quanto à colocação, 17,0% disseram ser “difícil, complicada, pouco prática” ou “não consegui colocar”; considerando-se a visão da entrevistada sobre a percepção do parceiro, 4,0% referiram “meu marido não gosta” e “achou horrível” e quanto ao acesso, foram citados problemas relacionados à disponibilidade e seu alto-custo (1,5%).

Segundo Marli, no que diz respeito à disponibilidade do produto, a justificativa apresentada já está resolvida, pois o Hospital Dia disponibiliza gratuitamente o preservativo feminino para suas pacientes. No entanto, sobre os demais argumentos usados, a pesquisadora admite preocupação especial com a observação de que algumas mulheres portadoras de HIV não usam o contraceptivo porque o parceiro não gosta.


“Isso é um problema, pois o homem acaba dominando a relação e elas não conseguem negociar o uso do preservativo. Um dado importante é que 93% das mulheres entrevistadas foram infectadas por via sexual. O contágio pelo vírus HIV está crescendo entre as mulheres em todo o mundo”, observa Marli.

Devido a essa dificuldade de diálogo com o parceiro antes do ato sexual, as mulheres, de acordo com a autora do trabalho, acabam se expondo a riscos desnecessários. “Ao usar o preservativo feminino a mulher tem mais autonomia. Se o homem não quiser usar camisinha, ela ainda pode se proteger. Hoje, de um modo geral, a maioria das mulheres com HIV são infectadas pelo próprio marido”, lamenta.

Políticas públicas – Na opinião de Marli, à medida que os cientistas se aproximam das pacientes infectadas por HIV, entendem suas angústias e preferências, é possível estimular a adoção de ações educativas que minimizem as dificuldades paro o uso do preservativo.
Por Leandro Rocha