agosto 09, 2011

Comissária de Bordo lança livro com histórias dos tripulantes da Varig

Quem acompanhou, em 1927, a compra de um hidroavião e o início da rota aérea Porto Alegre-Pelotas-Rio Grande levando apenas nove passageiros, jamais poderia imaginar que nascia ali a maior companhia aérea que a América do Sul já teve. Durante quase 80 anos, a companhia levou brasileiros e estrangeiros, com o máximo de segurança e qualidade de atendimento, aos quatro cantos do planeta. E durante 30 anos desse período, a comissária de bordo Cláudia Vasconcelos estava lá, acompanhando, como testemunha, os melhores e os piores momentos. E foi para dividir com os brasileiros, espalhados por todo o mundo, essas emoções que a escritora e poeta lança no dia  05 de agosto, às 19h, na Livraria  Cultura,  da Av. Paulista  o livro Estrela Brasileira (KBR ).

Entre pesquisas, redação, revisão e impressão, o livro foi produzido em três anos e meio e foi inspirado na sua própria história e nos depoimentos de colegas e frequent flyers. Para dar visibilidade e corpo às suas lembranças, Cláudia criou um blog com fotos e textos, o qual é acessado por brasileiros e estrangeiros em todo o mundo.


Além de depoimentos de personalidades como o cirurgião plástico Ivo Pitanguy, Cláudia ouviu comissários de bordo e ex-funcionários que permitiram a ela contar a história da Varig do nascimento ao encerramento dos voos.

- A Varig foi a grande embaixadora do Brasil no mundo, a tal ponto que quando apresentou sinais de declínio, ficamos sem acreditar que isso pudesse acontecer. Parecia parte da gente, já que nós nos sentíamos parte da Varig, lembra Ivo Pitanguy.

 O livro trata também da administração da Aerus, fundo de pensão dos funcionários da empresa que sofreu intervenção do Governo Federal após diversas decisões equivocadas. A situação difícil dos ex-funcionários, a maioria totalmente desamparada e alguns já falecidos, levou Cláudia a criar a expressão "câncer de angústia".

As realidades, e os choques com elas, encontradas em países onde morou como China, Hong Kong e África do Sul e o encantamento com os Estados Unidos também integram esse livro biográfico.

Curiosidades
O livro, de fácil leitura e linguagem direta, traz histórias divertidas e curiosidades até hoje não reveladas. Em uma delas, Cláudia conta como socorreu o autor brasileiro Gilberto Freire, autor de Casa Grande e Senzala, usando uma garrafa portátil de oxigênio. Gilberto teve um mal súbito durante um voo da Varig.

Algumas histórias são mais dramáticas, como o caso da passageira que, em meio a uma fortíssima turbulência no voo entre Buenos Aires e Montevidéo, teve uma fratura exposta após ser lançada ao teto do banheiro e depois cair sobre a pia. Ou em outro caso de turbulência, os passageiros de um voo entre Salvador e Aracaju passaram por maus momentos após se deliciarem com casquinhas de siri e chopps.

O lado cômico está em histórias como as dos cachorros que se abrigavam no aeroporto de Teresina, capital do Piaui. Em meio a algumas das mais altas temperaturas do País, eles se deitavam sob as asas dos aviões para se protegerem do sol escaldante. Um comandante, apelidado de Flecha Ligeira, conseguia fazer o voo entre Belo Horizonte e Rio de Janeiro em pouco mais de uma hora e era o terror dos comissários de bordo que precisavam, nesse curto espaço de tempo, servir bebidas, petiscos, o almoço e recolher as bandejas depois. Ou quando o sorvete chegava tão sólido ao avião que só era quebrado com um machado de emergência.

- Eu guardo a lembrança divertida de alguns passageiros que, confusos, imaginando tratar-se de tapiocas, mordiam as toalhinhas quentes e perfumadas usadas para limpar as mãos antes das refeições, conta.

Famosos e Frequent Flyers
Para escrever o livro, Cláudia entrevistou várias personalidades que tem na Varig, até hoje, uma referência de bom atendimento e qualidade como Chico Buarque, Ivo Pitanguy, Denise Frossard e Regina Marcondes Ferraz, entre outros. Chico, por exemplo, fala da importância que as lojas da voadora, espalhadas pelo mundo, tinham para os brasileiros e lembra que, muitas vezes, ia às lojas de Paris e Roma, para ler jornal, tomar café e se encontrar com outros brasileiros.

Segundo Ivo Pitanguy, o atendimento na Varig era doce e as aeromoças eram um encanto. O cirurgião lembra ainda  do conforto das antigas aeronaves e conta  que os passageiros aguardavam para comer e beber bem no avião, ao contrário, palavras dele, do que ocorre hoje.

As Inovações
A Varig foi uma empresa que marcou uma época e deixou saudades em gerações de brasileiros que aprenderam a respeitar e a admirar esse verdadeiro símbolo do Brasil no exterior.

- Minha vida se divide em antes e depois da Varig. E tenho certeza que as dos meus colegas também. Nós éramos a “internet” da época. Éramos admirados pela profissão e pela empresa onde trabalhávamos. E para os que me qualificam como ex-comissária, faço uma retificação: sou e sempre serei uma comissária da Varig, reforça Cláudia.

A chegada dos primeiros DC-10 ao País, a criação da nova profissão de inspetora de voo, o lançamento de refeições pré-cozidas e de uma escola para a formação de comissários de bordo foram algumas das novidades introduzidas pela Varig no País. Algumas delas foram criadas aqui e copiadas pelas concorrentes internacionais.

- Em 1974, com a chegada dos aviões DC-10, com dois corredores, foi criada uma nova rotina no serviço de bordo. Sistema de vídeo com grandes telas de projeção, canais de música, poltronas mais largas e mais conforto e espaço para os passageiros foram algumas das novidades colocadas à disposição de brasileiros e estrangeiros, lembra a escritora.

A autora lembra ainda a contratação por Ruben Berta do Barão Austríaco Max Von Stuckart que chegou a Vogue, casa noturna no Rio, para comandar a virada que aconteceria nas aeronaves. Logo na chegada, Berta deixou claro o que queria: “faça algo de que possamos nos orgulhar”. E foi nesse período que a Varig ganhou o slogan “a maneira mais elegante de voar”
Um exemplo da qualidade e até, porque não dizer, da suntuosidade reinante nos aviões da Varig foi o voo inaugural pra Nova Iorque, com vários políticos e personalidades. O luxo e a sofisticação impressionavam. Logo na entrada, os casacos e os paletós dos convidados eram recolhidos por lindas, e eficientes, comissárias de bordo, numerados e guardados. Depois de acomodados, os passageiros eram servidos com champagne, recebiam necessaires de couro, chinelos e revistas do mundo inteiro.

- Viajar pela Varig era um verdadeiro evento. Nenhuma empresa tinha um serviço de bordo tão primoroso, lembra Regina Marcondes Ferraz.

Ficha Técnica
Título: Estrela Brasileira
Autora: Cláudia Vasconcellos
Nº de Páginas: 240
Preço: R$12,00 (e-book) e R$39,00 (impresso)