junho 25, 2012

A fotografia de Andre Liohn e o projeto Adil (Almost Dawn in Libya)

Você conhece o projeto Adil (Almost Dawn in Libya) Trata-se de uma exposição fotográfica, com trabalhos dos fotógrafos Lynsey Addario, Eric Bouvet, Bryan Denton, Christopher Morris, Jehad Nga, Finbarr O’Reilly and Paolo Pellegrin e o ganhador do prêmio Robert Capa Gold Medal 2011, Andre Liohn.

O projeto consiste em uma mesma mostra exposta em quatro cidades da Líbia. A intenção dos profissionais da imagem em áreas de combates colocar suas imagens e impressões a serviço do diálogo, sem impor uma realidade, gerando criar uma arena neutra com pessoas diferentes, com diferentes opiniões, expectativas e experiências de guerra.

 O objetivo principal da exposição é, principalmente, contribuir para o processo de reconciliação do povo líbio que enfrentam as consequências de uma guerra civil.

O conceito central do projeto é utilizar Comunicação Visual como uma ponte para esse processo. A exposição traz imagens que não seguem linha cronológica, geográfica ou autoral. Saiba mais sobre o projeto Clicando AQUI






Andre Liohn, é Botucatuense, cresceu na região da Vila Santana, passando um período de vida difícil em Botucatu, e agora, como cidadão italiano, recebeu o principal prêmio da fotografia de combate do mundo, a “Medalha de Ouro - Robert Capa 2011”, com uma série de imagens que retratam o conflito da Líbia.

 Muito mais que uma conquista pessoal, receber a medalha é um marco histórico, pois Liohn é o primeiro Sul Americano a ser agraciado pela premiação, que já acontece há 56 anos. O fotógrafo conquistou a medalha com o trabalho “Quase Amanhecer na Líbia”, descrito como uma série angustiante e dramática de imagens captadas na cidade de Misrata. Segundo os editores dos principais meios de comunicação internacionais, que votaram para posicionar as imagens de Liohn como vencedoras, as fotos mostram o verdadeiro espírito da fotografia de Robert Capa - Combate.

“Essas imagens marcantes são um exemplo de primeira linha da fotografia em combate, obtida com grande risco pessoal. Raramente vemos fotos tiradas tão profundas na névoa da guerra, servindo, para brilhar sobre os horrores e as consequências do combate”. 

 O fotógrafo tem trabalhos vinculados com as agências European Pressphoto Agency e Prospek e recebeu a medalha em jantar realizado na noite de ontem, no Mandarin Oriental Hotel, em Nova Iorque. 

 A carreira como fotógrafo freelance em áreas de conflito armado começou em 2006, cobrindo conflitos no Iraque, Afeganistão, terremoto no Haiti e mais atualmente o conflito da Líbia. As imagens do botucatuense circularam o mundo, sendo publicadas em periódicos como “Der Spiegel”, “Newsweek” e “The Guardian”. Liohn é fonte frequente dos mais importantes jornais brasileiros quando o assunto é conflito armado no exterior, com participações em reportagens do jornal “O Globo”, “Folha de São Paulo” e o “Estado de São Paulo”.

O fotógrafo afirma que trabalha lado a lado com o horror e o medo. “Não há como não ter medo. Quando você vê várias pessoas perdendo a vida na sua frente você sabe que obviamente não está imune a essa violência que ceifou a vida daquele cidadão que está sendo fotografado”, disse em recente entrevista ao O Grito Notícias.

No Brasil, ele também atuou como produtor do jornalista Roberto Cabrini, sendo indicado ao Prêmio Esso com a reportagem “Somália - Diário das Trevas”, que foi ao ar no programa “SBT Reporter”.

 




Liohn não teve uma infância fácil, cresceu em uma região da cidade onde durante anos funcionava a Zona do Baixo Meretrício, e na entrada de sua casa uma placa indicava: “Aqui é uma casa de família”, para evitar os transtornos de pessoas procurando pelo serviço de prostitutas e travestis. 

 As primeiras fotografias registradas por ele foram ainda na infância, sem sair de sua casa, da janela fotografou um grupo cheirando cola no meio fio, ao revelarem o filme fotográfico, seus pais se surpreenderam com a imagem, e a façanha de moleque resultou em bronca e castigo. 

 “Eu não nasci para ser um fotógrafo. As realidades e expectativas para os nascidos no tempo e lugar de onde eu venho não foram feitos de sonhos. Aqueles com quem compartilhei minha infância nasceram para serem criminosos, prostitutas, viciados em drogas ou mortas em idade precoce”, explica o profissional da imagem no site da agência que o representa internacionalmente a Prospekt.

Já adulto, e ainda em Botucatu, ele investiu na carreira de produtor cultural trazendo para a cidade importantes shows no início a década de 90, como Gilberto Gil, Edson Cordeiro, entre outros. Porém a vida reservava um caminho especial para ele, que ainda nos anos 1990, mudou-se do País. 

O início de uma nova vida no exterior o levou para os mais variados trabalhos, entre eles entidades humanitárias, atuação essa que o aproximou dos conflitos mundiais e da situação de extrema miséria vivida por diversos povos da África e Oriente Médio. 

Casou-se, e com a chegada dos filhos decidiu dar uma guinada na vida adquirindo um equipamento profissional de fotografia. 

Em 2006 iniciou a carreira como Fotógrafo freelance em áreas de conflito armado, cobrindo o terremoto do Haiti, e mais atualmente a revolta da Líbia desde o seu início. As imagens ganharam o mundo e foram publicadas na revista alemã “Der Spiegel”, na americana “Newsweek” e no jornal britânico “Guardian”. “Não há como não ter medo. 

Quando você vê várias pessoas perdendo a vida na sua frente você sabe que obviamente não está imune a essa violência que ceifou a vida daquele cidadão que está sendo fotografado”, comenta. 

Com o trabalho de registro de imagens no conflito da Líbia, Liohn juntamente com os demais fotógrafos do projeto organizam a exposição “ADIL - Almost Dawn in Libya” (“Quase o Amanhecer na Líbia”, título que também faz referência à expressão árabe à palavra “Justiça”), onde serão mostradas mais de cem fotografias em quatro cidades do país: Misrata, Benghazi, Trípoli e Zintan. “Essas regiões estão calmas agora. Não existem mais batalhas, o problema é como eles vão se reorganizar daqui para frente. O projeto foi idealizado para estas cidades, mas com o interesse internacional que estamos recebendo já pensamos e estamos acertando detalhes da exposição em Roma, Milano, Londres, Tóquio e Nova York”. 

Em entrevista ao jornal Folha de São Paulo, no dia 17 de março, Liohn explicou que as imagens da exposição não seguirão linha cronológica, geográfica ou autoral. As pessoas não saberão onde as fotos foram registradas. Com isso o grupo pretende recriar o que eles, viram na Líbia como profissionais da imagem. “Mostramos os dois lados, fotos de soldados de Gaddafi sendo maltratados e outras de Gaddafistas torturando pessoas. As fotos são documentos visuais do que vimos. Mas não queremos mostrar de que lado quem estava nossa intenção é mostrar o que aconteceu na Líbia. Em uma foto, alguém limpa sangue do chão, mas não importa de quem é aquele sangue, importa que é sangue líbio”, afirmou Liohn na reportagem da Folha de São Paulo.

Mesmo sem guardar boas recordações de Botucatu, Liohn pretende trazer os trabalhos para a cidade onde nasceu e cresceu. “Já estou em contato com algumas pessoas para falar e trazer a exposição ao Brasil, mas eu acho que Botucatu também tem que estar na lista. Não quero que esse trabalho seja visto apenas em São Paulo ou outra cidade grande”, diz.

Créditos de imagens  - André Liohn/Prospekt