maio 06, 2013

O dilema da proibição da doação de sangue por homossexuais


Todo mundo sabe o quanto os bancos de sangue lutam para conseguir convencer mais e mais pessoas a doarem sangue. Estima-se que 1,9 % dos brasileiros doem sangue regularmente. Essa estimativa está dentro dos parâmetros mundiais de 1 a 3% estipulados pela OMS (Organização Mundial de Saúde), mas a instabilidade das doações e a constante necessidade de sangue causam muitos transtornos para os hospitais e colocam em risco a vida de muitas pessoas. Uma simples doação, que leva cerca de 40 minutos, pode salvar de 3 a 4 vidas. Portanto, doar sangue é um ato de cidadania.




De acordo com o psiquiatra e psicoterapeuta, Dr. Marcelo Niel, no ato da doação, o voluntário é submetido a uma entrevista de triagem, que inclui informações sobre doenças, uso de drogas e medicamentos, tatuagens e piercings recentes e comportamento sexual. Todas essas coisas levam em conta um risco aumentado de transmissão de HIV e hepatites, mas há uma grande incoerência sobre a realização dessa triagem, uma vez que todo o sangue doado é testado para essas doenças antes de ser utilizado pelo receptor. A justificativa da triagem é eliminar doadores em condições de saúde que coloquem em risco a vida do doador e do receptor e potencialmente infectados pelas mesmas razões e também para "não desperdiçar material de coleta".

“Em minha opinião a questão do comportamento sexual é depois do medo que os brasileiros têm de agulhas, a segunda razão que mais inibe que pessoas doem sangue, porque ter que revelar dados sobre o número de parceiros, comportamento sexual sem proteção, além de parecer irrelevante, porque todas as amostras são sistematicamente testadas, me parece, no mínimo, preconceituoso”, comenta.

O psiquiatra ainda acrescenta que pessoas que se declaram homossexuais têm sua intenção de doação vetada, mesmo que tenha uma relação estável, mesmo que não faça sexo há meses. “Homossexuais são considerados promíscuos e com um risco maior de estarem contaminados”, explica o psiquiatra. Pergunto: e quem mente na hora de doar sangue para um familiar? Será que um heterossexual promíscuo, na hora que tiver que doar sangue para a sua mãe hospitalizada, revelará, no momento da triagem, que participou de uma orgia na semana anterior? Eu duvido. E aquele homossexual que estiver passando pela mesma situação? Será que ele vai dizer a verdade, será que ele se assumirá homossexual na tal triagem, correndo o risco de ser proibido de doar sangue para um familiar na UTI? Certeza que não”, questiona Marcelo Niel.

Negar o direito de um homossexual doar sangue é negar o direito à cidadania. “Alguns podem dar de ombros, pensando ‘danem-se se eles não querem meu sangue’, mas conheço diversos homossexuais que mentem, ocultam sua sexualidade para poderem ajudar conhecidos e desconhecidos, doando regularmente o seu sangue. Além disso, doar sangue é uma forma bastante cidadã de conhecer as suas sorologias. O que parece mais fácil: assumir que essa prática é retrógrada, preconceituosa e burra ou instalar detectores de mentiras nas triagens dos bancos de sangue? Pense nisso” conclui Marcelo Niel.

Sobre Marcelo Niel: Médico psiquiatra e psicoterapeuta de orientação junguiana e especializado no tratamento de dependentes químicos. Mestre em Ciências e colaborador da Unifesp. Professor Instrutor do Departamento de Psiquiatria da Santa Casa de São Paulo. Um dos autores do livro: Série Dilemas Modernos 1: Drogas, Família e Adolescência


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