junho 23, 2013

Diário de bordo da manifestação de 20 de junho em Botucatu

Renato Fernandes

Reduzir o preço da gasolina, barrar a PEC 37, passe livre para o transporte público, evitar a abertura de novas vagas no curso de medicina da Unesp em Bauru, eram apenas algumas das pautas levantadas pelos manifestantes, ainda na concentração da grande manifestação que tomaria das ruas da cidade. Concentração essa realizada na praça Comendador Emílio Peduti (Bosque), na tarde do último dia 20 de junho de 2013.

Sonzinho para embalar o texto - 

No início o povo estava tímido, cheguei a duvidar que todos os manifestantes virtuais, que se pronunciaram pelo Facebook compareceriam realmente na praça, afinal foram mais de oito mil internautas dizendo que iriam às ruas e o inacreditável aconteceu; eles compareceram e vieram em peso. De acordo com a polícia, foram cerca de oito mil manifestantes, a mesma quantidade que havia confirmado presença nas redes sociais.


Antes de descer para a praça do Bosque passei pelo Centro Cultural de Botucatu, onde encontrei a velha guarda que batalhou contra os demandos da ditadura se preparando para o evento, eles estavam com faixas fortes, uma delas pedindo “Não vendam nosso curso de medicina” e outra a favor da redução da maioridade penal.

O presidente do Centro Cultural, João Carlos Figueiroa  me explicou que a faixa  era do Movimento em Defesa do Curso de Medicina, o material era pesado e em respeito aos veteranos carreguei a faixa até a Praça do Bosque.

Logo ao pisar na praça, comecei a estabelecer contato, fui conversando com todos que encontrava pela frente e percebi que ao longe alguém me fotografava com frequência, estranho, quem deveria estar fotografando era eu, mas tudo bem deve ser algum fã enrustido, espião preparando um book sobre meus atos subversivos ou algum pau mandado cumprindo ordens obscuras.

Comecei a sentir um clima hostil por conta disso, mas procurei deixar de lado minha mania de perseguição e manter a minha busca por respostas e informações.

Juntei-me a um grupo e comecei a conversar com quem me rodeava, foi então que um rapaz me disse não entender tanto interesse da mídia e soltou. “Tá muito estranho tem jornalistas do Diário da Serra aqui desde as 15 horas, o que será que estão querendo (já eram 17)”, disse.

Pronto minha mania de perseguição aumentou, mas continuei conversando com o rapaz até perceber que ele tinha mais mania de perseguição do que eu próprio e decidi me apresentar. “Olá sou o Renato Fernandes, jornalista do Diário da Serra”, ri por dentro e senti o rapaz desconcertado, mas continuamos conversando por um longo tempo.

A concentração de pessoas aumentou e percebi uma dupla inusitada em meio à multidão, uma moça com máscara de gás e um rapaz com a máscara do Guy Fawkes, fiquei assustado, afinal de contas, Guy Fawkes era um terrorista que quase destruiu o Parlamento Inglês no que ficou conhecido como Conspiração da Pólvora, se estão usando essa máscara o negócio vai ficar feio.

Aproximei-me e puxei conversa, percebi que estava enganado, eram pessoas de bom coração querendo várias melhorias. “Para chegar aqui, entrei no ônibus e pulei a catraca, apenas para avisar aos ocupantes do coletivo sobre a nossa luta e demandas”, diz Elen Roma, 20 anos, a garota que portava em seu pescoço uma máscara de gás. “É apenas um símbolo, mas se a coisa engrossar estou prevenida”, brincou.

No trecho de onze quarteirões, onde foi desenvolvida a manifestação, se via de tudo. Gritos de guerra e palavras de ordem, contei mais de cinco diferentes, todos fazendo referência ao poder do povo e reivindicando mudanças radicais no governo.

Havia inclusive aqueles manifestantes com demandas importantes, porém com pouca representatividade, no local. “Vim para cá pedir uma ciclovia que ligue o bairro Maria Luiza ao Centro”, comentou Benedito Soler Campos, em sua bicicleta iluminada e cheia de cartazes.

Ao lado do ciclista encontrei uma cadeirante, Juliana Witzler, de 19 anos, ela pedia pela redução na carga tributária e estava bastante tranquila com sua participação. “Se fosse em São Paulo eu estaria com medo, mas em Botucatu estou tranquila e realmente preciso me manifestar, esse é o momento de mudarmos o Brasil”, disse esperançosa.

Logo após minha conversa com o ciclista e a cadeirante, a passeata ganhou corpo e tomou conta da rua Amando de Barros. As poucas lojas abertas estavam com seus funcionários apreensivos e o acúmulo de pessoas chamou a atenção do presidente da ACE/CDL (Associação Comercial e Empresaria de Botucatu / Câmara de Dirigentes Lojistas), Luiz Rogério Bernardo Peres. “Ficamos preocupados, mas tenho convicção de que o movimento aqui na cidade será pacífico e não teremos problemas. Mas a preocupação está presente assim mesmo”, disse.

O sinal de aprovação com as demanda dos manifestantes causou diferentes reações. A farmácia Drogal decidiu permanecer aberta apesar da rua totalmente ocupada por manifestantes. “É uma questão de saúde pública e confiamos na nossa cidade e na cidadania desse pessoal, não haverá problemas”, garantiu o gerente Marcelo Tamanahá.

Já na padaria Pessin o apoio se deu  abaixando as portas. “Fechamos o estabelecimento em sinal de respeito às demandas. Não preciso nem dizer se aprovo ou não as reivindicações, acho que o povo fala por si”, disse o gerente da Pessin que na presa, dei uma de amador e não peguei o nome.

Em meio à multidão estava uma senhora fotografando com seu tablet, era Aparecida Campos, mãe do premiado fotógrafo Andre Liohn, vencedor do prêmio Robert Capa 2012. Único jornalista a ficar dentro da prefeitura de São Paulo com a Guarda Municipal, nos recentes casos de vandalismo em manifestações no centro da Capital. “Meu filho está fazendo a parte dele e eu a minha. Tenho que registrar esse momento especial”,  disse.

Parei para filmar a passeata,ergui minha mão com a máquina fotográfica e passei 10 minutos filmando o povo passar. Cheguei a ficar com câimbra no punho.

Subi a rua Coronel Fonseca sentido Avenida Santana, com um dos organizadores do evento, o escritor Deivide Limm, ele me falou que estava satisfeito, atingiu os objetivos e ressaltou uma nova luta, a organização de uma greve geral contra a PEC 37, no próximo dia 1º de julho.

Em frente à prefeitura a multidão se acumulou, tomei conhecimento que representantes do governo receberia algumas pessoas que lideravam o movimento, me posicionei para entrar ao prédio assim que a porta abrisse, avisei o fotógrafo para ficar esperto, pois entraríamos no prédio. Dito e feito a porta se abriu para a imprensa e os líderes do movimento. Com um certo esforço físico conseguir acesso ao saguão da Prefeitura e parti em busca do comandante da Guarda Municipal de Botucatu, Sérgio Bavia, para saber a respeito do esquema de segurança e a tensão que pairava no ar, já que uma multidão estava à porta com gritos de guerra e faixas, muitas delas com palavras de baixo calão e extremamente ofensivas.

Fiquei espantado, uma fotógrafa me empurrou de canto e queria que o comandante fizesse uma pose para fotografia ao lado de seus agentes, parecia foto de time de futebol. Como assim fazer pose, no fotojornalismo não se preza a espontaneidade, conclui que na real ela queria mesmo era tirar o comandante da frente de meu gravador, em busca de exclusividade. Como não sou mesquinho a deixei com sua foto posada e mantive minha meta até ver com o canto dos olhos que outro jornalista do Diário da Serra, Haroldo Amaral,  também havia entrado no prédio, decidi ir para fora e encarar a confusão.

Sai do prédio e chegando diante da Catedral voltei a encontrar o Deivide Limm e o avisei que os outros líderes do movimento já estavam dentro da Prefeitura, mas ele me informou que naquele momento a sua missão era registrar em fotos a manifestação.

Foi então que percebi que tinha muita gente ao meu redor. Não conseguia dimensionar quantas pessoas estavam presentes, precisava de comparativos e o Deivide de fotos, o convidei para ir até o prédio Royal Palace, para  conversar com o zelador José Luís Esteves.

Esteves me levou ao salão de jogos para ver a manifestação de cima. “Tem mais gente aí do que em muitos shows. Para você ter uma ideia, tem mais pessoas na praça hoje, que durante os eventos da Virada Cultural”, garantiu.

Me separei do Lim ali mesmo, diante do prédio e voltei para a porta da prefeitura, quando vi um rapaz escalando as janelas do prédio, pensei comigo. “Pronto. Começou o vandalismo”. Minutos depois percebi que era apenas um manifestante pacífico, o músico John Câmara colocando faixas em pontos mais altos na sede do executivo.

Tendo consciência da quantidade de pessoas que tomou o Largo da Catedral, voltei ao carro de som que acompanhou o grupo. Ao mesmo tempo em que os representantes dos organizadores da manifestação saíam de uma reunião que tiveram com os representantes do poder público e trouxeram as conclusões do encontro. Só então tomei conhecimento real da pauta dos manifestantes.

No carro de som, os organizadores apontaram sete pontos, porém o sistema de alto falantes não alcançaria toda a multidão, foi então que surgiu a ideia de que o pessoal gritasse em coro o resultado da reunião, e quase todas as pessoas que estavam ao redor do veículo gritaram em uníssono: 1) Melhoria no sistema de transporte coletivo; 2) passe livre para estudantes; 3) redução no valor de pedágio; 4) redução nos impostos; 5) mais investimentos na educação; 6) mais atenção no sistema de saúde pública e 7) maior atenção ao PS da Unesp de Botucatu.

A pauta voltou a ser discutida na sexta-feira, 21, com o Secretário de Administração Wellington Lopes, (Tutu), porém um dos líderes dos manifestantes não deixou o fotógrafo participar do encontro, o secretário autorizou, mas nõ pode fazer anda, e brincou com o profissional da imagem. "Se quiser faço uma pose", disse.

Não entendi direito, porque o representante do grupo não deixou a imprensa entrar? Poxa, eles deviam satisfações para as oito mil pessoas que compareceram no manifesto, mas ignorou tudo isso..... ESTRANHO!

Já estava na redação do Diário da Serra, quando recebi a notícia de que três menores haviam sido apreendidos pela Guarda Municipal tentando atirar pedras nas vidraças da Prefeitura. Corri ao ponto da ocorrência e me deparei com Moacir Bernardo, policial rodoviário aposentado, amigo de Figueiroa e um dos diretores do Centro Cultural de Botucatu.

 Era ele que carregava a faixa pedindo redução na maioridade penal e fiquei surpreso ao ver que  havia estourado a placa nas costas dos moleques vândalos e ajudou a render os três meliantes.

Bernardo ainda brincou. “Pode até ser que a maioridade penal não seja reduzida, mas essa placa cumpriu seu papel na captura desses menores”.


Vídeo do grande amigo Eduardo Delarmonica do Blog TV São Manuel




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